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Ronco alto: quando pode ser apneia do sono e o que avaliar

Publicado em 13 de março de 20265 min de leitura

Roncar não é automaticamente “normal”. Em muita gente, o ronco é só um incômodo — mas, em outras, é um sinal de apneia obstrutiva do sono (AOS), um problema em que a garganta fecha repetidamente durante a noite e a respiração falha por segundos.

O ponto-chave é: se o ronco vem junto de pausas respiratórias, engasgos, sono não reparador ou sonolência diurna, vale investigar com calma. E, quando aparece uma indicação de CPAP, aparelho oral ou cirurgia, uma segunda opinião médica ajuda a confirmar o diagnóstico, checar a gravidade e escolher a melhor estratégia.

Quando o ronco vira suspeita de apneia do sono

O ronco acontece por vibração de tecidos da via aérea quando o ar passa com dificuldade. Na AOS, além do ronco, existem episódios repetidos de obstrução que fragmentam o sono e podem reduzir a oxigenação.

Alguns sinais aumentam bastante a suspeita:

  • Ronco alto e frequente, quase todas as noites
  • Pausas na respiração observadas por alguém
  • Acordar “sufocado”, com engasgos ou sensação de falta de ar
  • Sono não reparador, acordar cansado
  • Sonolência durante o dia (inclusive no trânsito)
  • Dor de cabeça matinal, irritabilidade, queda de memória e concentração

De acordo com a Associação Médica Brasileira (AMB), a apneia pode se associar a sonolência diurna e também se relaciona com maior risco cardiovascular — o que torna a avaliação ainda mais importante em quem tem pressão alta, arritmia, diabetes ou doença cardíaca.

Como se confirma o diagnóstico (e por que isso muda o tratamento)

O diagnóstico não deveria se basear só em “ronco”. Em geral, a confirmação é feita por polissonografia (em laboratório) ou por testes domiciliares selecionados, que ajudam a medir eventos respiratórios e a gravidade.

Além do exame, o médico precisa conectar os achados aos seus sintomas e ao seu contexto: peso, formato da via aérea, uso de álcool à noite, remédios sedativos, obstrução nasal, posição em que você dorme.

Aqui entra um motivo comum para pedir segunda opinião: pessoas com o mesmo laudo podem precisar de condutas diferentes. E o contrário também acontece — um exame “não tão impressionante” pode ser relevante se você tem muita sonolência, riscos ocupacionais (dirigir, operar máquinas) ou comorbidades.

CPAP, aparelho oral ou cirurgia: como decidir com mais segurança

O CPAP é uma das terapias mais usadas: ele mantém a via aérea aberta com pressão positiva, reduzindo ronco e eventos respiratórios. A diretriz da American Academy of Sleep Medicine recomenda terapia com pressão positiva (PAP) para adultos com AOS, com necessidade de acompanhamento para adaptação e adesão.

Em paralelo, outras opções podem ser consideradas em casos selecionados (e isso deve ser individualizado): perda de peso, terapia posicional, aparelho intraoral (placa), correção de fatores nasais e cirurgias da via aérea.

Um alerta honesto: a eficácia “na vida real” depende muito de adesão. Revisões mostram que o CPAP melhora sonolência e ronco, e pode ajudar em pressão arterial, mas os resultados cardiovasculares de longo prazo variam entre estudos e populações, especialmente quando o uso noturno é baixo (poucas horas por noite), como discutido em revisões e meta-análises no PubMed e na literatura. Veja, por exemplo, uma revisão Cochrane clássica sobre CPAP em adultos com AOS: Cochrane/PubMed.

Pontos de atenção antes de “fechar” um tratamento

Se você recebeu indicação de CPAP, cirurgia ou placa, vale levar estas perguntas para a consulta (ou para uma segunda opinião):

  • Meu diagnóstico foi baseado em polissonografia? Qual foi o índice (IAH) e qual a gravidade?
  • Quais sintomas meus o tratamento pretende melhorar (ronco, sonolência, pressão, arritmia)?
  • Existe obstrução nasal relevante ou outro fator que atrapalhe a adaptação ao CPAP?
  • Qual alternativa faz sentido no meu caso e por quê (placa, posicional, cirurgia, perda de peso)?
  • Como será o seguimento e como vamos medir se deu certo?

Por que a segunda opinião faz diferença na apneia do sono

Na prática, a decisão raramente é “CPAP sim ou não”. É mais parecido com: “qual o melhor caminho para mim — e como garantir que eu vou conseguir seguir?”.

Uma segunda opinião pode ajudar a:

  • Confirmar o diagnóstico (inclusive se o exame foi domiciliar e há dúvida)
  • Checar se a gravidade do laudo combina com seus sintomas
  • Identificar causas que atrapalham o tratamento (nariz, refluxo, hábitos, posição)
  • Avaliar se a indicação cirúrgica tem critérios e expectativa realista
  • Montar um plano com etapas, em vez de uma decisão única e definitiva

E isso não é “desconfiar do médico”. É reconhecer que medicina do sono é uma área com múltiplas abordagens e que a adesão ao tratamento é parte central do sucesso. Inclusive, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reforça que o diagnóstico e o tratamento dos distúrbios do sono são atos médicos, com exames e condutas que exigem avaliação técnica.

Há também um dado interessante sobre o valor da reavaliação em casos complexos: em um estudo divulgado pela Mayo Clinic News Network, uma grande parte das segundas opiniões resultou em diagnóstico novo ou refinado. O número exato varia conforme o tipo de caso, mas a mensagem é clara: revisar com outro especialista pode trazer mais precisão antes de decisões importantes.

Quando procurar avaliação com mais urgência

Algumas situações não são para “esperar mais algumas semanas”:

  • Sonolência intensa com risco de dormir dirigindo
  • Pausas respiratórias importantes observadas e engasgos frequentes
  • Ronco com pressão alta difícil de controlar ou arritmias
  • Suspeita de apneia em quem vai operar (para reduzir riscos anestésicos)

Nesses cenários, acelerar a investigação pode evitar complicações e melhorar qualidade de vida.

Se você está nessa fase de decisão — exame já feito, indicação de CPAP, placa ou cirurgia, ou dúvida se o laudo “explica” o que você sente — uma segunda opinião médica baseada nos seus exames e na sua história pode trazer a segurança que falta para seguir com convicção.

Fontes e Referências

  1. 1
    Conselho Federal de Medicina (CFM) — Medicina do sono como ato exclusivo do médico

    Fonte brasileira sobre diagnóstico/tratamento em medicina do sono e atos médicos relacionados.

  2. 2
    Associação Médica Brasileira (AMB) — Apneia do sono e seus tratamentos

    Fonte brasileira discutindo diagnóstico/manejo e relação com risco cardiovascular.

  3. 3
    AASM Clinical Practice Guideline — PAP para apneia obstrutiva do sono (PubMed)

    Diretriz internacional de referência para uso de CPAP/APAP e seguimento do tratamento.

  4. 4
    Cochrane Review — CPAP para apneia obstrutiva do sono em adultos (PubMed)

    Revisão sistemática clássica sobre efetividade do CPAP em sintomas e efeitos em pressão arterial.

  5. 5
    Mayo Clinic News Network — valor de segundas opiniões

    Resumo institucional de estudo sobre frequência de diagnósticos novos/refinados após segunda opinião.

Ficou em dúvida entre CPAP, placa ou cirurgia?

Envie seus exames (como a polissonografia) para uma segunda opinião médica e entenda qual conduta faz mais sentido para o seu caso.

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